Arquivado em: poltrona
em defesa do clube-empresa (ou da empresa-clube, quem sabe?)
você fez um trabalho péssimo naquele projeto. seu chefe pergunta:
- o que você tem a dizer sobre isso?
você responde:
- é, a gente deu tudo de si, mas não conseguimos o resultado. agora, é levantar a cabeça e pensar no próximo projeto.
…
você foi um dos responsáveis por um prejuízo absurdo da empresa. o CEO pergunta:
- péssimo resultado. hein, Almeida?
você responde:
- pois é, o resultado não foi bom. nós até criamos muito mas eles conseguiram aproveitar melhor as oportunidades. mas tem um ano fiscal inteiro pela frente. vamos trabalhar muito e seguir as determinações do gerente porque nada está perdido ainda.
…
na sua entrevista de emprego, o entrevistador pergunte:
- o que você pode oferecer para a empresa?
você responde:
- raça, determinação e muito empenho.
…
jogador de futebol é, sim, a melhor profissão do mundo. qualidade, talento, compromisso ou resultados? quem é que tá exigindo isso pra pagar um salário de 5 dígitos?
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Incompreendido pelos próprios pés.
Por Manuel Rolim
A bola veio da esquerda. Eu estava na direita. Bem na direita. Quase na linha lateral. A bola veio forte. Um passe que atravessa a quadra de um lado ao outro, tem que ser forte, para não correr o risco de interceptação. Eu percebi o goleiro vindo para fechar o ângulo do chute. Fiquei com preguiça de dominar. Lembrei do gol do Guilherme, naquele Atlético e Cobreloa em 2000. Aquele, em que ele chutou de trivela (e de primeira) no ângulo direito do goleiro. Resolvi – com certa preguiça de pensar em uma jogada melhor -, tentar o mesmo lance. Quando a bola encostou no meu pé, percebi que havia pegado no lugar errado. Ela não ia pegar o efeito desejado, não ia no ângulo contrário, não ia ser nada do que eu imaginei. Mas, por uma dessas sortes Ronaldinho Gaúcho-contra-a-Inglaterra, a bola fez uma trajetória ainda melhor, passando por cima do goleiro e caindo dentro do gol. De cobertura.
Uma pena que, ao contrário do dentuço do sul do país, não havia nenhuma emissora de TV filmando o lance. Espero que fique para história como um dos maiores gols jamais vistos, como o do Pelé na rua Javari.
Manuel Rolim é peladeiro e está contratando um cineasta para filmar a história de sua vida nas quadras.
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divino, no futebol, só o Ademir da Guia
vai dizer que, na hora do aperto futebolístico, na bacia das almas dos 48 do segundo tempo, você nunca pediu uma forcinha divina? nem um “pelamordeDeus”? nem um “aiaiaimeuDeusdocéu”?
se você disse que não, mentiu. e cuidado que mentira é pecado.
só tem um problema: não adianta. não vai dar certo. esquece. o Deus judaico-cristão não tem nada a ver com o futebol.
você pode até achar que tem. uma prova seriam os países que venceram Copas do Mundo: Brasil, Itália, Alemanha, Argentina, Uruguai, Inglaterra, França. todos de maioria católica ou cristã e, por consequência, temente a Deus. mas, enquanto Israel não ganhar nem campeonato de pebolim, esse argumento é falho. vamos a argumentos mais sérios.
um exemplo? Deus é amor. e Ele ama a todos os seus filhos, de forma igual. por quê então um time é tricampeão brasileiro e outro é último no campeonato do Acre? os torcedores dos dois times rezam igual. além do mais, não existe espaço para amor dentro das quatro linhas. o futebol é a arte de enganar o outro. de trair, ser desonesto dentro das regras.
mais um? Deus é justo. e o futebol é tudo, menos justo. pergunta pro Ronaldinho Gaúcho.
outro? Deus é piedade. e não existe espaço para o perdão no futebol. ou você imagina algum atacante em pleno gozo das faculdades mentais oferecendo a outra face ao Essien, do Chelsea? melhor não.
então, vamos deixar essa divindade quieta, que ela já tem preces demais para atender. rezar por causa de futebol teria menos efeito que mandar um e-mail sobre a falta de grampos no escritório para o CEO de uma multinacional.
sendo assim: Deus, existe alguém aí em cima com paciência suficiente pra aguentar torcedor de futebol? para oferecer redenção a cabeças-de-área sem talento ou atacantes vesgos? que goste de viradas espetaculares e classificações no último minuto?
ontem, no jogo da Liga dos Campeões da Europa, eu cheguei a pensar que existia. aquele gol aos 47 do segundo tempo era o que o mundo inteiro queria, menos os blues de Londres. graças a ele (ou Ele?), teremos Barcelona e Manchester na final. não era certo, mas era justo.
à noite, eu tive certeza que não existe. o Galo faz uma remontada increíble, como dizem os argentinos, venceu o Vitória por 3 a 0, quase fez o querto, levou o jogo para os penaltis e perdeu. era certo, mas não era justo.
além do mais, se tal deus existisse, o time de um conhecido meu – um sujeito que não sabe perder – teria mais derrotas só pra ele aprender.
por isso, sou um ateu futebolístico. mas pode ser que esse deus do futebol exista, e só não goste de times com camisa listrada de preto e branco. não é mesmo, Botafogo?
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Por Guilherme Boechat
domingo, dia do primeiro jogo da final da final entre Cruzeiro e Atlético
Buenos Aires, Argentina.
16h40 – A transmissão ao vivo do globo.com informa que, após belo passe de calcanhar de Wagner, Kleber completa para o fundo da rede do goleiro Juninho.
Eu não tinha com quem comemorar. É muito solitário acompanhar um clássico em um lugar onde não falam sua língua e não dão a importância devida a um derby regional estrangeiro.
17h10 – Chega um SMS do Leo Chiquinho, dizendo “13 anos depois um gol galinha no Mineirão!!! Kleber, o galinha chorona azul!!!”
Eu já estava na fila do check in da Gol (irônico, não?) no aeroporto Ezeiza. Novamente, olhei a minha volta em busca de alguém com cara de mineiro. Nadie. Eu aflito. Nos 60 minutos seguintes esperei em vão alguma outra mensagem com o resultado do jogo.
18h10 – Feito todo o procedimento de check in, liguei pro meu pai. O diálogo foi mais ou menos assim:
- Pai?
- Gui! Cê tá no Mineirão???
- Não, tô em Buenos Aires.
- Buenos Aires? Cê não tá no Mineirão?????
- Quanto foi?
- Cinco a zero.
- Ah tá bom. Agora fala sério.
- Cinco a zero, porra!
- Mentira! Gol de quem?
- Um do Kleber, dois daquele zagueiro comprido e dois do Jonathan!
- Dois do Jonathan? Tá de sacanagem?
- Ó, foi cinco a zero mesmo. A ligação tá ruim, não tô te ouvindo direito, chegando aqui me liga.
Acho que eu era o único naquele aeroporto que queria realmente ir embora de Buenos Aires.
Não vou escrever sobre o segundo jogo. Vi pela TV, não teve graça.
Guilherme Boechat foi merecidamente campeão mineiro invicto e, como o pessoal do globo.com, não sabe que o Juninho é tudo menos goleiro.
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o amor nos tempos da cólera
sexta, dois dias antes do primeiro jogo da final entre Galo e cruzeiro
eu tremia feito vara verde.
não era medo do Ramires. é que eu tinha que entrar na casa da minha então namorada e comunicar ao pai dela que tinha raptado não apenas a filha dele, como a neta também. sem direito a resgate.
pra não ter minha cabeça decepada, garantia casamento no ano que vem. apesar de que, para mim, tô casado desde o dia em que ela me disse sim.
no fim, a benção, conselhos e todos felizes.
dito isso, uns e outros podem pensar: olha lá o vice mudando de assunto. calma, raposas velhas. eu chego lá.
domingo, dia do primeiro jogo da final da final entre Galo e cruzeiro
a Keninha aceitou casar comigo conhecendo quase todos os meus lados. menos o torcedor de futebol.
quando eu liguei a TV, ela nem imaginava o que vinha por aí.
não tem nada pior para um torcedor de futebol que se sentar em frente à TV, abrir uma cervejinha e descobrir que seu time foi escalado com 4 volantes. é mais ou menos como tirar a roupa da Gisele Bundchen e descobrir que ela é homem. nessa hora, eu já fiquei puto.
e, se esquema com muito volante já é broxante, esquema com muito volante que não sabe jogar bola é um desespero. não pega nem no tranco.
sem criatividade no meio e com uma avenida na ala esquerda (como é que um time com 4 volantes leva bola nas costas do lateral?), o Galo ficou travado e o cruzeiro foi fazendo gols. depois do quarto tento, anotado por um sujeito mediano que já deve sua carreira à defesa atleticana, eu desliguei a TV com vontade de voltar para 1993, me trancar no quarto e jogar Alex Kidd o resto da noite.
vendo tudo isso, a Keninha veio me consolar, cheia de carinho. ganhou um rosnado. ela riu da minha cena ridícula. ganhou outro rosnado. no fim, eu me deitei sozinho e rosnando.
e ela, curiosamente, não desistiu do casamento.
quarta, dia de Galo e Vitória pela Copa do Brasil
depois de mais uma atuação ridícula e outra goleada na sacola, minha cara era de quem perdeu um parente. a Keninha não aguentou (quem aguentaria?) e riu.
eu disse pra ela não rir, que era sério, rosnei e fui me deitar.
e ela, curiosamente, não desistiu do casamento.
domingo, dia do segundo jogo da final entre Galo e cruzeiro
na hora do almoço a Keninha me olha, ressabiada, e pergunta: vai ver o jogo?
eu disse que não, e que ela poderia ver o que quisesse. só que ela não quis ver nada. e eu vi o jogo.
aliás, o primeiro gol do Galo ilustra bem um tipo de amor que ajuda muito no casamento. bastou um golzinho, um gesto simples, pra eu esquecer a raiva e ter esperança de novo. pra eu me apaixonar de novo por aquele time que tinha me dado várias decepções.
não que existam crises ou decepções entre eu e a Keninha. muito pelo contrário. mas, quando eu pedi a moça em casamento, me apaixonei mais uma vez por ela. e a gente sabe que vão existir crises e decepções. mas a gente vai continuar se apaixonando de novo, por causa de coisas tão simples como um gol.
quando o jogo acabou e o Galo perdeu o título, eu precisava fazer compras. como se não bastasse, tive que aguentar o hino do cruzeiro tocando até no supermercado. ela, claro, teve que aguentar meu mau-humor. sem, curiosamente, desistir do casamento.
melhor assim. hoje eu tô feliz, casado, com uma filha linda, duas plantas e uma cachorrinha. aliás, esse pôster do cruzeiro campeão tá perfeito pra ensinar a bichinha onde fazer suas necessidades.


