eu tava lá


Brasil x Argentina – Eliminatórias da Copa de 2010
26 Novembro 2008, 10:53 am
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futebol para Homer Simpson

uma vez o William Bonner disse que o telespectador médio do Jornal Nacional era o Homer Simpson. o Galvão Bueno segue essa idéia à risca, a respeito de quem vê futebol.
talvez daí venha a sua tendência de rotular pessoas, times ou qualquer coisa que entre na tal telinha da Globo. pra simplificar o entendimento das coisas, sabe?
Brasil x Argentina, por exemplo.
ao melhor estilo de “Betty, a Feia”, o narrador criou um rótulo atrás do outro.
o primeiro capítulo foi “Riquelme, o Antipático”. e tome discurso para justificar que o craque do Boca é um chato de galochas. ou melhor, de chuteiras.
depois veio “Mourinho, o Mascarado”. mais quinze minutos de teorias sobre o jeitão do técnico da Inter de Milão.
aliás, o que ia acontecer um encontro entre os dois? um ia implicar com o outro, por ser um antipático? e o outro? Iia desprezar o um, porque é muito mascarado?
lá pelas tantas começa a novela “Argentinos, os Marrentos”. porque eles isso, porque eles aquilo, e jogar contra qualqer argentino vira um verdadeiro suplício. isso explica as trombadas que eles levaram do Adriano, do Lúcio, do Júlio Batista, do Juan. eles merecem.
e quando começou o coro de “adeus, Dunga”? ele não pensa duas vezes e manda o “Torcida Mineira, a Irreverente”. irreverente, tá bom.
olha: tudo bem que falar dele é bater em cachorro morto. mas acho que a gente também tem direito. completa a frase: Galvão, o…

Brasil-il-il-il-il!

Brasil-il-il-il-il!



Antes que o Centenário acabe.
19 Novembro 2008, 7:43 pm
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Crença Centenária

por Manuel Rolim

Eu não acredito em Deus e essas coisas todas que a Igreja Católica prega, como anjos, apóstolos e padres-não-pedófilos. Não acredito em Buda, mesmo tendo muita simpatia pelos budistas. Não acredito em Maomé, e aqui não declaro minha simpatia, por medo dos fanáticos de ambos os lados da Guerra contra o terror. Eu não acredito em duendes, gnomos e no Diogo Mainardi. Mas eu acredito no futebol. E mais, sou um extremista. Pertenço a uma religião monoteísta. Meu Deus, único, é o Atlético. Não, na maioria das vezes eu não acredito que o Galo vá ganhar. Mas como um católico, o atleticano vive em função do juízo final. Freqüentamos os cultos no templo do Mineirão, oramos nossos hinos e brados retumbantes, ajoelhamos, prometemos, fazemos sacrifícios. Tudo porque sabemos que um dia virá a redenção. Sim, ela há de vir. Como Atleticano Ortodoxo que sou, eu tenho esta crença. Uma crença que nasceu há exatos 100 anos. Mas além da religião Atleticana, existem outras variáveis de ser atleticano. O atleticanista, que seria a vertente política do atleticano. Qual a importância da má distribuição de renda ou da ditadura cubana perto de uma derrota do Atlético? Já o atleticômano é um viciado no Galo. Sua felicidade depende da droga do Atlético, com o perdão do trocadilho. Quanto mais ele experimenta, mais quer. Uma abstinência de vitórias tem o mesmo efeito de uma seca de cocaína. Tem também o atletiqueiro, que vem de “original do Atlético”, aquele que nasce com um único orgão vital, o Galo, responsável por irrigar com sangue os músculos aguerridos. O único órgão preto e branco do corpo humano. E que pode ter um ataque em uma derrota injusta do Atlético. Pensando bem, todas as derrotas do Galo são injustas. Enfim, existem todos os tipos de atleticanos imagináveis, embora a maioria seja inimaginável. Mas uma coisa que nunca existiu é o atleticano não-praticante. Aquele que não pensa Nele todos os dias. Que não canta por Ele, não sofre por Ele. Que não O tem onipresente. Talvez eu esteja sendo excessivamente parcial. Ora, mas não é o amor um cego?

Manuel Rolim é publicitário, tem 25 anos, nunca teve sífilis e possui uma paixão platônica pelo Galo.



Vitória (ES) x Milan – Liga dos Campeões da Europa
18 Novembro 2008, 12:16 pm
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Vitórias

por Dan Zecchinelli

Era a primeira participação do glorioso Vitória Futebol Clube na Liga dos Campeões da Europa. Depois de uma ascenção meteórica da segunda para a primeira divisão do campeonato espanhol, no qual já havia sido bicampeão, o time buscava seu lugar no panteão das melhores equipes do mundo. O VFC contava com uma administração austera e competente, sem desvios de verba. Seus recursos provinham das rendas vindas quase que exclusivamente de vitórias duríssimas na primeira temporada na primeira divisão do Espanhol. Primeira temporada, aliás, fulgurante, contando com as assistências e chutes precisos de Shevchenko, a energia polivalente de Park Ji Sung e a artilharia do brasileiro Jorginho. Depois da conquista, claro, a equipe atingiu outro patamar. Ofertas para jogadores de classe mundial não eram mais vistas como uma aberração de um provável milionário russo injetando dinheiro da máfia para lavagem. Era, sim, um sonho possível: um time bem formado, bem treinado, com (ainda) pouca tradição, mas um futuro brilhante pela frente.

A segunda temporada no campeonato espanhol começou bem, e com reforços. O veterano brasileiro Jorginho foi para o banco para dar lugar ao craque e também veterano Thierry Henry. O ucraniano Shevchenko aceitou proposta do futebol italiano e deu lugar ao inglês Michael Owen como companheiro de ataque. O jovem brazuca Diego deu lugar ao argentino Aimar como armador das jogadas do esquema 3-5-2. O time se completava com o incansável Park Ji Sung na lateral direita e o brasileiro Maxwell na esquerda. Como volantes, o camaronês Patrick M’Bami e o português Pereira, além dos zagueiros Lúcio (ex-Bayern de Munique), Kompany e Felipe, mais o goleiro Gomes. O primeiro turno terminou com o Vitória empatado, pau a pau, com a equipe do Barcelona. Os reforços do meio da temporada, com a entrada do meia alemão David Odonkor, da dupla de volantes argentinos Javier Mascherano e Pablo Zabaleta, além do meia Van der Vart, vindo do próprio Barça, pareciam que iam facilitar as coisas. De fato, o Vitória atropelou as equipes mais fracas, sempre dividindo e alternando a liderança com a equipe catalã, até o confronto direto, quando a equipe alvianil venceu o time de Ronaldinho Gaúcho e Eto’o por categóricos 3 a 1.

Avante, alvianil, pra mim você é o maior do Brasil.

Avante, alvianil, pra mim você é o maior do Brasil.

Mas as rodadas finais do campeonato, longe de serem fáceis, viram a equipe alternando escalações para poupar os titulares para a Liga dos Campeões. Mesmo com alguns tropeços, como um inesperado empate por 1 x 1 com o lanterna Osasuña, o Vitória disputou a semifinal da Copa do Rey contra o Barcelona (sempre ele) com o time reserva (2 x 1 e 1 x 2, passando pelo saldo de gols) e fez uma final emocionante contra o Valência. Depois de estar perdendo por 2×1, o Vitória virou para 3 x 2, sagrando-se bicampeão da competição. E no final, venceu o campeonato espanhol com 6 pontos à frente do Barça.

Mas na Liga, como sabemos, o buraco é mais embaixo. E o cansaço das competições começava a se fazer presente. A primeira fase foi relativamente tranqüila, passando com relativa facilidade por Zaragoza e Atlético de Madrid, mas passando apertado pela poderosa Juventus de Trezeguet e Nedved: 2 x 1 em casa e 1 x 1 em Turim. Nas quartas de final, o Vitória venceu fácil o Liverpool: 4 x 1 e 0 x 0.

E veio a semifinal. Contra o Milan. De Kaká, de Seedorf, de Gilardino. E sobretudo, como veríamos em breve, de Dida.

O retrospecto era amplamente favorável ao time italiano. Em 10 partidas, 7 vitórias milanesas (incluindo uma sonora goleada de 4 a 0) e 3 empates. E para piorar, a dupla de ataque titular, Henry – goleador da Copa del Rey, e Owen – artilheiro isolado do Campeonato Espanhol, não estava nas melhores condições físicas, exaustos pelo final da temporada. Mas tinha que ser.

Não era possível enfrentar o poderoso Milan com um esquema tão ofensivo, em pleno San Siro. O Vitória entrou em campo para a primeira partida em um fechado 4-4-2. O jogo começou tenso, mas logo no início do primeiro tempo, Henry recebeu um passe na esquerda da grande área. Ele passou por um zagueiro e chutou com força no canto direito do gol, sem chances para Dida. Uma jogada bem-sucedida, utilizada à exaustão no campeonato espanhol, dava certo novamente. Será que Carlo Ancelotti, despreocupado com a zebra, não havia visto os tapes dos jogos do Vitória?

A partir daí, só deu Milan. A retranca armada pelo Vitória bem que tentou. Foram 2 bolas na trave, e pelo menos 4 defesas milagrosas de Gomes. Mas na metade do segundo tempo, a muralha defensiva desabou. Seedorf, em jogada individual, descobriu Gilardino na entrada da área, que num sem pulo de primeira acertou o canto direito de Gomes.

A torcida rossonera ia ao delírio. E o Milan só não ganhou o jogo porque Gomes, sempre ele, salvou o Vitória nos acréscimos.

Os alvianis saíram de Milão preocupados. Porque até aquele momento, nenhum outro time havia sido tão duro e difícil de bater quanto o poderoso Milan. É preciso admitir: o empate no San Siro foi sorte. Muita sorte.

O jogo de volta foi amplamente aguardado. Depois de duas semanas de preparação, o departamento médico só liberou a dupla de atacantes Henry e Owen depois de minuciosos exames. Henry, inclusive, jogaria no sacrifício. Mas era necessário.

A partida iniciou morna, com os adversários se estudando. O Vitória só tomaria a iniciativa na metade do primeiro tempo, com uma jogada de Park Ji Sung pela lateral direita, abafada pela equipe italiana. O Milan jogava no contra ataque, contando sempre com a velocidade de Kaká e Seedorf. Mas no final do primeiro tempo, o Vitória começou a impor seu jogo, com uma perigosíssima bola na trave. O rebote sobrou para Owen que, sozinho de frente para o gol, tentou um desastrado peixinho. Para desespero da torcida, o atacante conseguiu cabecear para fora, no lance mais incrível do jogo. O primeiro tempo terminou com pressão total dos alvianis, mas Dida estava pegando até pensamento. A torcida começava a perder a confiança. Parecia que o Milan não tomaria gol nem naquele, nem nos próximos 10 jogos.

O segundo tempo começou a mil por hora. A defesa milanesa ficou completamente atônita com a artilharia pesada, mas Dida estava impecável, muito diferente do goleiro de falhas bisonhas que nos acostumamos a ver na seleção. A bola simplesmente não entrava. E os contra-ataques italianos eram sempre perigosos, a ponto de deixar a imensa torcida no estádio em silêncio várias vezes.

O Vitória se preparava para arrefecer os ânimos e tentar segurar o empate de 0 x 0. Uma estratégia perigosa, mas que poderia lhe dar a tão sonhada vaga na final. Até que em uma roubada de bola, Mascherano tocou para Owen. Ele descobriu Park Ji Sung avançando pela direita. O coreano levou a bola até perto da linha de fundo e tocou rasteiro o meio da área, para descobrir não Owen, nem Henry, mas sim Maxwell, que desobedeceu o esquema cauteloso do final da partida e chegou como elemento surpresa para tocar de primeira, no canto, sem nenhuma chance para o infalível Dida. Era tarde para o Milan, que ainda tentou um ou dois chutes perigosos, sem sucesso.

O herói do jogo, em momento de descontração.

O herói do jogo, em momento de descontração.

O jogo terminou e a torcida foi à loucura. Nunca um 1 x 0 havia sido tão difícil, tão suado e tão merecido na breve história do Vitória Futebol Clube. Era incrível: o time estava na final. Tudo era possível a partir daí. Tanto que, quinze dias depois, o Vitória enfrentou o Chelsea, de Drogba e cia. Venceu por 2 x 0 e conquistou o título histórico da Liga dos Campeões.

Mas nenhuma partida, nenhuma emoção, nada se comparou à batalha épica contra o Milan, naquela noite de quarta-feira, sozinho em casa, jogando o Master League do Pro Evolution Soccer 6, com o time que eu havia criado, no meu Playstation 2.

Dan Zecchinelli é jogador de Playstation e torcedor do Vitória Futebol Clube, o glorioso alvianil capixaba, primeiro clube de futebol profissional do Espírito Santo, que infelizmente disputará em 2009 a Série B do Capixabão.



Bahia x Vitória – Campeonato Baiano de 1994
17 Novembro 2008, 10:22 am
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“Sabe qual o telefone novo do Bahia? 2 4X0 – 1X0 – 1X0…”.

por Ângelo Mello

No início de 1994, essa era a piadinha que todo torcedor do Bahia ouvia dos sofredores do vice. No Nobel Itaigara, onde eu estudava, ouvi demais. Sofri demais. Afinal, nos dois primeiros turnos do Baianão daquele ano foram esses os placares dos BAxVI’s disputados até então. E eu, meu pai e meus dois irmão mais velhos, Bernardo e Luisinho, tínhamos ido aos quatro jogos.

No segundo 4X0, a situação ficou realmente preta pro nosso lado. Meus irmãos começaram a discutir por causa do jogo e saíram na porrada no meio da arquibancada. A pressão de meu pai, Luisão, disparou por causa da briga e do placar e o velho começou a passar mal. “Fudeu a Bahia!!! Fudeu o Bahia!!!” era o que eu pensava enquanto socorria o velho e apartava a briga. Saímos da Fonte antes do final do jogo pela primeira vez em nossas vidas, jurando que em 94 Fonte Nova nunca mais, pelo bem da saúde do coroa e da harmonia familiar.

O vexame tricolor tomava contornos dramáticos. A diretoria desesperada pra reverter a situação, optou pela saída de praxe: contratou um novo técnico, o na época pouco conhecido Joel Santana – que cara de cachaceiro! – e um caminhão de jogadores ainda menos conhecidos. Da penca de boleiros obscuros que a resenha da Rádio Sociedade anunciava, guardei dois nomes: Souza e Israel. Um fez carreira com relativo sucesso no Bahia. O outro eu nem lembro se chegou a jogar. Aliás, não faço a mínima idéia porque lembro deles dois especificamente. O que importa mesmo, é que em meio àquele bando estava um atacante de carreira medíocre em São Paulo, passagem obscura por clubes da Espanha e Portugal, e nome de porteiro de prédio. Era um tal de Raudinei. Sinceramente, nada muito animador…

Mas aí o improvável aconteceu. Baixou o Sobrenatural de Almeida no Tricolor de Aço e o time venceu os dois turnos restantes. Lá em casa, todo mundo na varanda ouvindo os jogos pela rádio, porque coragem de voltar na Fonte tava faltando. Mas não faltava esperança e vibração: “Bora Bahêêa, minha,porra!!!” eu gritava toda segunda-feira, assistindo os melhores momentos com narração de Chico Queiroz no Telesportes. Era o que me restava, fazer o quê?

Chegou a fase final e a esperança da conquista do bicampeonato baiano só aumentava. O Bahia levava vantagem, porque o Vicetória conseguiu perder o primeiro turno pro Camaçari. Não lembro da fórmula mirabolante de disputa da época, mas o Bahia chegou no último jogo precisando de um empate. A vingança seria servida quente e empurrada goela abaixo dos lixeiros. Bora Bahêa, minha porra!!! Agora vai!! E quer saber de uma? A gente vai pro estádio também…

Compramos os ingressos com antecedência, mas não conseguimos chegar na Fonte duas horas antes como era de costume (a gente sempre ia pra ver a divisão de base jogar a preliminar). A cidade inteira rumava pra lá. Depois de muito custo e muito atalho, o coroa conseguiu uma vaga no estacionamento do Desterro, coladinho na Fonte. “Começamos com sorte”. Mas ao entrar, a esperança de arrumar um bom lugar pra ver o jogo acabou. O estádio já tava lotado e ainda tinha uma multidão tentando chegar. Ficamos no anel inferior, perto das cabines de rádio e das cadeiras, ali do lado da Povão. Claro que eu não vi quase nada do primeiro tempo. Nem os gols perdido por Zé Roberto (“quatro dedos, filho da mãe!!”), nem o gol da desgraça do time de Cana Brava. “Porra nenhuma, esses putos são égua paraguaia. Hoje não tem pra ninguém”.

No intervalo, enquanto a galera dispersava pra comprar cerveja quente e mijar no muro, eu e Bernardo colamos atrás da grade que separa a área das cadeiras. Meu pai, malandro velho da Fonte, tinha se enfiado ali desde o início do jogo. Luisinho já tinha sumido, provavelmente puto de raiva e xingando do goleiro ao massagista.

Começa o segundo tempo e o Bahia não entra em campo. No seu lugar, um bando de pica tonta batendo cabeça. E tome-lhe o time do barralixo na pressão. Era gol perdido atrás de gol perdido. Do meu lado, um negão 4X4 começou a chorar já no início do segundo tempo. Aos 30 minutos, o cara tava sentando no chão aos prantos, com direito a soluço e tudo. Meu pai não sabia se o consolava ou assistia ao jogo:

- Levanta daí rapaz, fica assim não, vai sujar sua bermuda… O Bahia vai empatar, tenha fé em Deus mermão!

- Porra nenhuma, coroa. Esse time tá foda!!! Esses porra não acerta um passe, rapaz. Ó pá isso, velho… Disgraaaaaaaaaaaaaça… – Rapaz, o negão se babava todo.

- Porra nenhuma, negão. Escreva com letra de ouro o que eu tô dizendo: o Bahia vai ser campeão. Eu visto saia e raspo as pernas se isso não acontecer – falava o meu velho.

Não vou mentir, eu já tava desesperando também, mas meu pai naquela hora me encheu de fé. A porra do time é que não ajudava. Os caras não acertavam nem meio passe. Eu mais olhava pro céu rezando do que assistia o jogo. Nem vi quando o tal de Raudinei entrou, nem sei no lugar de quem…

Quarenta do segundo tempo. O negão já em choque. A galera do lado era um misto de esperança e desilusão. Dizem que tinha torcedor deixando o estádio, mas do meu lado ninguém mexeu um músculo. O velho Luis tratou de dar mais esperança pra galera. Sacou duas notas de R$ 50,00, duas onças novinhas, recém-lançadas pelo Plano Real, que eram mais que um salário mínimo em 94:

- Eu aposto 100 contra 1 que o Bahia é campeão hoje. Quem duvida que cole um real contra cem comigo, eu aposto. Hoje o Bahia é campeão, nessa porra!

Ninguém apostou, não sei se por medo do negão ou por fé no time, mas tudo bem. Três minutos depois, o Sobrenatural de Almeida mudou de nome. Num lance fortuito, Jean pegou uma bola recuada por Missinho na intermediária e passou pra direita. Uma bicuda de qualquer jeito pra frente, duas cabeçadas sem direção e a bola cai nos pés de Raudinei. O sacana nem tocou na bola, só ajeitou o corpo e meteu de primeira no canto. Era o gol do título. Da festa. E do torcedor do time de puta enfartando e passando de maca bem em frente de onde eu tava. “Quem mandou não torcer pro Bahêa, seu porra?”

Depois disso, não lembro de quase nada. Só do negão agarrado em meu pai, eu e Bernardo em cima do alambrado gritando e de Luisinho, que apareceu do nada com a camisa na cabeça, o cabelão na cara e xingando todo mundo do mesmo jeito.

Foi o último jogo que ele viu na Fonte. Menos de um mês depois, Luisinho, meu irmão mais velho, o torcedor tricolor mais apaixonado que eu conheci, faleceu em um acidente de carro, bem em frente a Sede de Praia do Bahia. As vezes eu penso que ele viveu 20 anos pra tá ali naquele dia, que foi um dos mais felizes da vida da gente. Talvez o mais feliz da vida dele.

Eu, meu pai e Bernardo nunca deixamos de ir pra Fonte nem para os treinos, apesar de não ser a mesma coisa. Tudo bem, o meu Bahia também não é mais o mesmo. Mas com fé em Deus vai voltar a ser, até porque meu irmão continua lá, de camisa na cabeça, cabelão na cara, pulando igual um doido e xingando todo mundo, seja na vitória, seja na derrota.

Ângelo Mello, Publicitário, 30 anos, está há 7 morando longe de Salvador. Mas sempre que pode vai pra Fonte ou pro Fazendão matar a saudade do Bahia. E xingar a diretoria incompetente, que não larga o osso…


O lance capital da partida:



Boca Juniors x Gimnasia La Plata – Clausura 2007
16 Novembro 2008, 9:02 pm
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impresionante la hinchada

com 10 anos de idade ganhei uma camisa do Boca Juniors, de um tio que morava na Argentina. a camisa azul y oro tinha o patrocínio de uma fábrica de pneus, a Fate, que a gente chamava de Fateó por causa de um círculo que vinha depois do nome, formando a marca.

por isso, e por causa do meu gosto por futebol argentino, times populares e torcidas que cantam o tempo todo, comecei a ter grande simpatia pelo time de La Bombonera.

quase 20 anos depois, três coincidências me colocaram frente a frente com os Xeneizes – como são conhecidos os boquenses. eu ia para a Argentina, o Boca jogaria com o Gimnasia La Plata na Bombonera e o craque Juan Román Riquelme, o tango de chuteiras, espécie em extinção da fauna futebolística, estava de volta ao time. e, se tem uma coisa que um torcedor de futebol não despreza, são coincidências.

a procura por ingressos não foi muito animadora. o Boca simplesmente não vende ingressos. as taquillas estavam todas fechadas e entradas, só para sócios.

pensando em dar um pulo na feira de San Telmo, no domingo à tarde que acabava de ficar vago, passei pela peatonal Lavalle – uma espécie de calçadão dos argentinos – e vi um cartaz de venda de ingressos para o jogo.

lá dentro, dois sujeitos muy amistosos – Pepe e Juan – me explicaram que eram sócios e iriam me vender, a um preço nada amistoso, o direito de ver a partida. desconfiado como todo mineiro, fiz um milhão de perguntas antes de fazer o que já estava decidido na hora que entrei na lojinha: pagar o preço que os caras quisessem pela bagaça.

logo na chegada, uma idéia excelente. só entrava nos arredores do estádio quem tinha ingressos. já imaginou isso no Mineirão, em dia de clássico? nem eu.

na entrada, uma pessoa entrega um programa do jogo e outra um balão gigante em forma de salsicha para balançar enquanto torce. essa, uma idéia que não era lá muito boa. ou prática.

entramos. logo em seguida, o Boca. caramba, o Riquelme tava ali, na minha frente. não fosse eu um sujeito criado no meio da poeira de Sete Lagoas, era capaz até de ir pro alambrado pedir autógrafo.

só uma coisa me intrigava. a torcida do Boca cantava, mas não do jeito que eu imaginava. pensei comigo que eles deviam guardar a melhor parte pro meio do jogo e me sentei.

entrevista daqui, fotógrafo dali, pomponete de lá e o jogo começa. com pouco mais de 2 minutos, Riquelme solta pra Schelotto, Schelotto para Clemente Rodriguez, Rodriguez cruza e Neri Cardozo faz 1 a 0. a torcida começou a entoar o tradicional e impublicável (pelo menos na íntegra) “es para vos…”, que vem depois de cada gol. como era um dos últimos jogos do Schelotto – o Guille – pelo time, La 12 emendou um “no se va, Guille no se va” e em seguida o “por eso yo, te quiero dar, Boca, mi corazón…”. finalmente, a lendária torcida do Boca botava a garganta pra funcionar.

logo depois, Palermo, Palermo e Palermo. três gols toscos feito ele. 15 minutos de jogo, 4 a 0 Boca Juniors. e tome cantoria. eu tentava entrar no meio, sem saber muito a letra, feito aluno novo tentando entrar na turma. não tive muito sucesso.

a relação gol x valor do ingresso tava começando a ficar razoável quando o time boquense parou de jogar. nada mais aconteceu até o intervalo. até o intervalo.

porque um barulho ensurdecedor veio da torcida do Gimnasia. barulho de torcida no intervalo, pra quem tá acostumado com o Mineirão, só pode ser briga.

quando olhei para o lado, aconteceu o que um torcedor não esquece fácil. os caras cantaram 15 minutos inteiros, alto, com o time apanhando por 4 a 0 no campo. um concerto. perto daquilo, a torcida do Boca era uma decepção do tamanho de 30 mil pessoas.

no segundo tempo teve até mais um gol para cada lado. Martin Palermo fez seu quarto gol no jogo, também muito tosco, e atingiu uma marca histórica. “El Loco” nunca tinha feito 4 gols numa partida. mas, pra falar a verdade, eu não tava nem aí. só tentava entender o que era a torcida do Gimnasia.

muito tempo depois, um amigo até me deu uma explicação. “já imaginou o torcedor do Gimnasia que vai a La Bombonera? só deve ter louco”. verdade.

será que eu consigo ver um jogo do Boca fora de casa?


os gols do Boca (repare que Diego também tava lá):



uma vez, até morrer.
14 Novembro 2008, 10:43 am
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publicado no blog da Lápis Raro, em 25 de março de 2008, aniversário de 100 anos do glorioso Clube Atlético Mineiro

“a gente não ganha muito, mas se diverte pra caramba.” essa é a única promessa que eu faço para toda criança que começa a torcer para o Galo.

porquê não adianta prometer outra coisa. o Galo não é mais um time de vitórias épicas, campeonatos ganhos no último minuto, essas coisas irrelevantes.

para o atleticano, basta um foguete. aí alguém grita Galo. você ouve, tira o chinelo, desiste das cobertas, esquece os problemas, coloca a bandeira em cima do carro, põe o hino para tocar. trinta vezes. encontra com um amigo, com dois, com cinco, com trinta mil. Galo! Galo! Galo! todo mundo sabe que as cordas vocais do atleticano começam na aorta.

a gente canta o hino. canta o hino no começo, no meio, no fim, quando o Taffarel dá uma volta no campo depois de ganhar uma decisão nos pênaltis, quando é eliminado pelo Palmeiras reforçado por um juiz, quando é rebaixado, quando sobe, quando ganha das Marias, quando o Dadá dá a cabeçada desengoçada mais bonita do mundo.

a gente canta. quer sinal maior de alegria?

e vai nessa toada até o Willy Gonzer gritar gol. nessa hora, não tem garganta, copo de cerveja ou prato de tropeiro que fique inteiro. atleticano de verdade comemora gol até na reprise. e chega em casa empurrando o carro, feliz, porque a bateria acabou de tanto buzinar.

tá bom. muitas vezes o enredo é bem outro. o atacante não acerta, o juiz não colabora, o outro time não perdoa. a gente faz pressão, tenta ganhar no grito, fica com torcicolo de virar o rosto a cada gol errado. e a virada não vem. aí a gente promete: nunca mais torço pra esse time.

até estourar o próximo foguete.



Bela Vista x São José – Campeonato Amador de Sete Lagoas
13 Novembro 2008, 11:54 pm
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herança

minha primeira lembrança de futebol é o cheiro de éter.

ele sempre estava no ar quando meu pai me levava para ver os jogos do Bela Vista no Campeonato Amador de Sete Lagoas.

o glorioso alviverde do estádio Santa Luzia é a herança da minha família. camisa listrada de verde e branco, calções verdes, meiões brancos.

o Vô Chico foi um dos primeiros jogadores, quase fundador, e depois técnico. meus tios são todos torcedores, e muitas vezes foram dirigentes. meu pai, genro do Vô Chico, também é torcedor. como eu e meus irmãos.

a pouca fama do Bela Vista – fora de Sete Lagoas, claro – vem da excursão que o time fez à Europa, na decada de 50. o melhor resultado foi uma derrota: só 2 a 1 para o Real Madrid de Di Stéfano. eu conheci um dos jogadores da excursão: Sêo Délio, pai de um amigo meu. ele contava que estava sempre na lista dos dez zagueiros mais butineiros do campeonato. com orgulho.

Parararará... Bê-Vê!

Parararará... Bê-Vê!

hoje, o Bevê – que já foi profissional – só tem a escolinha de futebol. para o desespero do meu pai, que diz que não vai ao campo ver “jogo de menino”.

só que, entre o fim da década de 80 e o começo da década de 90, a história era outra. o periquito jogava e muito. ou seria algum efeito alucinógeno do éter?

de qualquer forma, o cheiro característico estava no ar quando o Bela Vista deixou a vitória escapar contra o Cachoeirense, no finalzinho, em Cachoeira da Prata, por causa de uma falha bisonha do bom goleiro Claudinei numa reposição de bola.

o mesmo cheiro de quando o Bevê goleou o Paraopeba por 5 a 1, lavando a alma de todo mundo que, como eu, também viu o jogo da ida na cidade de Paraopeba. os 3 a 0 pro time com o uniforme igual ao do Grêmio estavam vingados.

Textil, América do Papa-Vento, CAP, Cristalino, os clássicos contra o Ideal. qualquer que fosse o adversário, o éter não perdia um jogo.

Vicentinho, Zé de Dárcio, Kiki, Gilmarzinho, Abelardo, Flavinho (uma espécie de Paulinho Criciúma), Tocha, Serginho Bordéu, Piaza. o éter já aliviou as dores de todos esses craques. geralmente, trazido por um massagista numa bolsa da marca Drible.

mas teve um jogo que marcou. era a final do amador e o Bela Vista tinha perdido a primeira partida para o São José, em Jequitibá, por 1 tento a 0, gol de Toninho Cervejinha. na volta, numa segunda à noite, o estádio Santa Luzia estava abarrotado de gente. nunca tinha visto um campo tão cheio. como meu tio era dirigente, assistimos ao jogo no que era uma mistura de túnel, banco de reservas e tribuna de honra. o Bevê pressionou o jogo todo. a gente só não contava com um goleiro inspirado que tinha o sugestivo nome de Baú e fechou o gol. o São José saiu campeão e o goleiro saiu carregado.

voltei pra casa, no Corcel do meu pai, com uma sensação nova. a herança tinha sido passada de vez. o que antes era só festa, virou assunto sério. lá dentro, alguma coisa me deixava inquieto. e não era o cheiro de éter.



Atlético x Vasco – Brasileirão 2008
13 Novembro 2008, 10:52 pm
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o jogo da estréia

a gente esperava um juiz pronto para salvar o Vasco do rebaixamento. e ele não veio.

a gente esperava um jogo truncado. e ele não veio.

a gente esperava o time do Vasco. e ele também não veio.

no passeio do Galo, o alerta vermelho continua ligado: a única virtude do time durante o jogo foi a da piedade. a gente esperava futebol. mais um que não veio.

mas teve uma estréia.

como é normal, o estreante ainda tá meio perdido. sabe que não tá acertando muito. também, o esquema todo é novo. bate aquele frio na barriga.

só que dá pra ver que o novato leva jeito e a torcida é grande.

que a carreira seja longa.

num jogo em que tantos não apareceram, o blog veio.


os melhores (sic) momentos: